Livro da Basecamp

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Como a Basecamp criou a cultura empresarial ideal

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Horário garantido, espaço de trabalho tranquilo, salários transparentes e benefícios de verdade são apenas algumas das formas de criar um ambiente de trabalho saudável, feliz e produtivo, como relata Loulla-Mae Eleftheriou-Smith

 

Oitenta horas semanais? Reuniões até tarde da noite? Envio de e-mails na noite de domingo? De acordo com os chefes da empresa de aplicativos Basecamp, com sede em Chicago, o trabalho não precisa ser frenético desse jeito para ser produtivo.

Mas, com notificações constantes, prazos e metas a serem alcançadas, pode ser difícil se desligar, mesmo que uma pesquisa realizada pela Universidade Nacional da Austrália tenha constatado que trabalhar mais de 39 horas por semana é prejudicial à saúde física e mental das pessoas.

Em uma tentativa de compartilhar seus métodos para criar um espaço de trabalho mais feliz e produtivo, o CEO Jason Fried e o CTO David Heinemeier Hansson, ambos da Basecamp, escreveram um livro chamado It Doesn’t Have to Be Crazy at Work. Aqui, Fried compartilha dicas e conselhos.

Os escritores Jason Fried e David Heinemeier Hansson, da Basecamp

CTO David Heinemeier Hansson e CEO Jason Fried, da Basecamp.

Proteja o tempo das pessoas

Fried acredita que as pessoas deveriam conseguir trabalhar oito horas por dia, ininterruptamente, cinco dias por semana, sem que o trabalho roubasse o tempo pessoal delas e, principalmente, as horas de sono. Os riscos à saúde decorrentes da privação do sono são amplamente conhecidos, mas uma pesquisa realizada pela Rand constatou que a falta de sono também afeta a economia mundial. Os EUA perdem o equivalente a 1,23 milhões em dias de trabalho por ano por conta de sono insuficiente. O Japão perde 604.000 dias e a Alemanha, 209.000. Quando as pessoas dormem o suficiente, elas são "mais pacientes umas com as outras, mais gentis, inteligentes e criativas", disse Fried.

A Basecamp não tem reuniões obrigatórias que tomam o horário de trabalho e, quando alguém fica até mais tarde, Fried tenta descobrir o motivo e encontrar uma forma de reorganizar as cargas de trabalho ou os prazos, para que eles não precisem fazer mais isso. O mesmo acontece com o período de férias: as pessoas são motivadas, e não desencorajadas a tirar o tempo de descanso ao qual têm direito. “Proteger o tempo das pessoas é minha responsabilidade”, diz Fried. 

Defina regras de biblioteca  

Interrupções no escritório são a ruína da produtividade. No relatório de 2018 sobre distração no espaço de trabalho da Udemy, colegas tagarelas e ruídos no escritório foram citados como as principais causas de interrupção para as pessoas no local de trabalho, afetando os níveis de estresse e motivação dos funcionários.

Embora muitos funcionários da Basecamp trabalhem remotamente, a empresa eliminou as distrações para as pessoas que trabalham internamente ao definir regras de biblioteca.

"Pensamos sobre o tipo de espaço que seria favorável ao aprendizado, um ambiente para pensar e estudar, ou seja, exatamente o que devemos fazer durante o trabalho", explica Fried. "Em qualquer biblioteca do mundo, as regras são parecidas: as pessoas ficam quietas e agem com respeito, ninguém atrapalha ninguém. Este é o modelo perfeito para um escritório."

Se você precisar conversar, temos salas onde as pessoas podem falar em alto e bom tom, assim como uma sala de estudos em biblioteca.

Discorde, mas confie

Quando o proprietário da Amazon, Jeff Bezos, decidiu "discordar, mas confiar" no financiamento de um novo programa de TV em uma carta aos acionistas da empresa, Fried e Heinemeier Hansson consideraram essas palavras eficazes para descrever a forma como eles tomam decisões na Basecamp. Bezos achou que o programa proposto pela Amazon Studios não funcionaria, a equipe dele o pressionou para que o projeto fosse aprovado e ele respondeu dizendo: "eu discordo, mas confio em vocês e espero que ele se torne o programa mais assistido que já foi produzido".

Fried disse que, por vezes, a equipe da Basecamp "discutia infinitamente, tentando garantir que todos os envolvidos em uma decisão concordassem, mas era uma tarefa árdua, que demorava muito, e as pessoas mais poderosas acabavam fazendo as coisas do jeito delas". Fried acredita que é mais importante garantir que todos sejam ouvidos e possam discordar entre si, sem gerar ressentimentos, em vez de conseguir uma votação unânime. Ele e Heinemeier Hansson discordam regularmente de ideias, mas confiam nelas, seguindo os ensinamentos de Bezos. "Quero que as pessoas sejam bem-sucedidas", diz Fried. "Não quero que elas fracassem só para provar que eu estava certo."

Cofundador da Basecamp, Jason Fried

CEO da Basecamp, Jason Fried

Torne os salários transparentes 

Se tem uma coisa que pode dividir instantaneamente um espaço de trabalho, são disparidades nos salários. Uma pesquisa realizada pela PayScale constatou que, entre 71.000 trabalhadores entrevistados, conversas francas e honestas sobre pagamento foram consideradas mais importantes do que discussões sobre plano de carreira. A pesquisa mostrou também que a intenção de sair da empresa estava diretamente ligada a como os trabalhadores se sentiam em relação ao salário.

A Basecamp mudou a estrutura salarial da empresa há alguns anos. "Percebemos que ser bom no que faz é uma coisa, mas isso não significa que o profissional precisa ser um bom negociador para merecer um bom salário", explica Fried. "Seria muito injusto."

Agora há um nível de salário adequado para cada função, seja designer júnior, programador sênior ou representante de serviço ao cliente. O salário é competitivo, está entre os melhores salários do setor, mas elimina toda a tendenciosidade que pode existir ao definir os salários ou ao tentar igualar a tabela salarial antiga para novas contratações. "Achamos que esta é a maneira mais sadia de trabalhar", disse Fried.

Abandone o antigo CV

Tentar criar o CV perfeito é uma arte em si, mas o currículo nem sempre revela muito sobre as pessoas. É por isso que a Basecamp contrata candidatos para trabalharem com eles durante uma semana na criação de um projeto, pagando por esse período.

"Se estivermos pensando em contratar você, só conseguirei julgar seu trabalho através de um projeto. Não esperamos a perfeição, apenas conhecer seu trabalho. Você terá a oportunidade de explicar o que fez e seus motivos, e [nós poderemos ver] como você lida com críticas e como seria trabalhar com você", diz Fried.

Ofereça benefícios reais aos funcionários, não benefícios que são "pegadinhas"

Vantagens empresariais como jantar grátis para as pessoas que trabalham até tarde, salão de jogos e cerveja grátis na sexta-feira podem soar tentadoras, mas criam um problema: fazem você ficar mais tempo no escritório. Fried chama esses benefícios de "pegadinhas", os quais a Basecamp evita de todas as formas.

Em vez disso, eles investem em atividades que beneficiem a vida dos funcionários e, por sua vez, beneficiam a Basecamp, que terá uma equipe satisfeita. Essas vantagens envolvem oferecer férias remuneradas, bancar atividades voltadas ao bem-estar (seja fazer aulas de ioga ou comprar uma bicicleta, por exemplo), pagar uma massagem por mês (em um spa de verdade, não na cadeira do escritório), entre outras.

"Enviamos as pessoas para lugares incríveis, e o melhor é que não são apenas férias, mas uma experiência que elas possivelmente não teriam vivido sem nossa ajuda", disse Fried. Mas a empresa não faz isso para receber aplausos. "Fazemos isso porque parece ser a coisa certa", conclui.


Loulla-Mae Eleftheriou-Smith é uma jornalista do Reino Unido que escreve para os jornais The Independent e The Huffington Post, entre outros.

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